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Um eremita e seu aprendiz treinando telecinese e esgrima com uma espada a laser dentro de uma nave interplanetária

Pediram-me para escrever alguma coisa para o blog da Taverna do Trapeixe. Na hora minha mente rejeitou a idéia apesar de eu ter dito para o Renan que o faria – sim, eu pretendia te enrolar cara, foi mal. Esses dias vi um post do Renan em um grupo do facebook do qual ambos fazemos parte e vi ele divulgando o blog do Trapeixe e na hora o assunto acerca do post que eu deveria escrever me veio à mente. “Afinal”, pensei eu “por que não”? Mas aí esbarrei no problema da temática. Sobre o que eu escreveria? Me parecia que nenhum tema seria bom o suficiente ou que todos os bons temas já estariam saturados de informação. Opa, achei meu tema: originalidade.

NEVER EVER.

Ser original é a meta de quase qualquer autor iniciante – e na maior parte das vezes, não por ele achar que isso vai lhe trazer algum benefício, mas apenas pela satisfação pessoal de saber que criou algo inteiramente novo. O problema é que essa sensação é inalcançável, e mesmo quando o autor consegue imitar a sensação com algum tipo de efeito paliativo (gostar tanto do que escreve que nega para si mesmo todo e qualquer tipo de referência externa), o efeito dura pouco tempo e se poucas semanas depois o autor for reler o material, a ilusão irá se desfazer com um baque contundente na frágil auto-estima do coitado.

Eu posso estar sendo incrivelmente redundante ao falar isso, mas tomando o cuidado de plagiar com carinho uma matéria da revista especializada em RPG (e um pouquinho sobre escrita também) Dragonslayer, o negócio hoje em dia (e em praticamente em qualquer dia desde que os gregos resolveram contar histórias) é adicionar elementos que já existam com uma mecânica ainda pouco explorada, de forma que a união não-ortodoxa de elementos pré-existentes (pra não dizer manjados) se torne uma novidade. As vezes a melhor maneira de alcançar este objetivo é apelar para o antigo, para o que saiu de moda ou para o que é tradicionalmente oposto.

Em um conto meu que está ainda em produção, peguei uma raça de RPG que foi chutada da maior parte dos cenários atuais, um meio-elfo (que sejamos francos, nunca foi um raça conhecida por seus membros ilustres e backgrounds geniais) e coloquei-o em contato com algo que se tornou o maior BOOOM divisor de opiniões do cenário nacional de RPG Tormenta d20, o Império de Tauron. Dentro deste cenário os minotauros são um povo que explora a escravidão de raças inteligentes e que recentemente na cronologia do cenário tomou o controle do Reinado e fundou o Império de Tauron. Neste caso a mistura ficou exótica por que elfos e meios-elfos são os escravos mais bem valorizados dentro do reino minotauro. Eu inverti essa relação e transformei meu personagem meio-elfo em um clérigo da divindade patrona dos minotauros. De cara, já ganhei várias histórias secundárias acerca da infância peculiar do personagem que o levou a seguir um carreira entre os maiores inimigos de sua raça, temperada com uma boa dose de preconceito e tudo mais que, espero eu, fará de Adrian um personagem interessante.

Ilustração de personagem minotauro do cenário de RPG Tormenta d20 e seu escravo Goblin.

Normalmente este é um método eficaz, cria choque e surpresa ao leitor, além de ser muito legal de escrever as reações dos outros personagens ao serem confrontados com alguém tão exótico.

Um segundo exemplo não tão egocêntrico está na magistral trilogia dupla Star Wars. Começando pelo começo, temos uma história sem um começo de verdade. O protagonista Luke Skywalker está no meio de uma guerra interplanetária que não é explicada em nenhum momento das seis horas da trilogia clássica. Sabemos que existem rebeldes, sabemos que existe o império e nada além disso. Porém o que pra mim sempre foi o ponto g de Star Wars foi o fato de que em um mundo de guerras no vácuo em caças que atiram lasers, um mundo com um planeta-de-ferro-destruidor-de-planetas, um mundo com um vilão homem-robô, existe magia, personalizada como a carismática Força. Obi-Wan Kenobi era um mago hermitão em um mundo de rifles à laser. Darth Vader era uma mistura de general meio-robô com feiticeiro malvado. O exótico permeia Star Wars por meio de seus elementos contrários unidos com perícia magistral.

Darth Vader respeitosamente discordando da falta de fé de um infeliz general.

Em se tratando da trilogia atual, a ironia está exatamente na oposição criada entre o personagem adulto de Vader (um vilão cruel ao ponto de ameaçar a vida de seus dois filhos) e seu alter-ego anterior, o jovem idealista Anakin Skywalker, o menininho loiro de olhos azuis cheio de hormônios fervendo por Padmé Amidala que queria nada mais do que libertar os escravos em sua terra natal. Claro, isso irá fazer sentido apenas caso o leitor esteja familiarizado com a versão malvada de Anakin: porém os outros elementos que tornam a história exótica ainda estão lá e ainda mais presentes, aliados a novos: a Força está em seu auge, é quase cotidiana entre os váááááários jedis existentes por toda a galáxia e ainda está unida com uma tecnologia impensavelmente avançada. Um novo tema chega na roda: intriga política (coisa que não é possivel no estado absolutista construído na trilogia clássica).

Um terceiro e último exemplo está na saga épica de George Martin, popularizada poruma ótima série da HBO: As Crônicas de Gelo e Fogo. Aqui encontramos vários exemplos, mas vamos facilitar concentrando os comentários sobre um personagem da série, de longe um dos mais populares e o meu favorito, falemos sobre Tyrion Lannister.

Essa foto não ajuda muito o que estou tentando provar, mas ele é realmente feio.

Apelidado de Duende por causa de seus vários defeitos congênitos, Tyrion é interessante exatamente por se fazer valer de seus defeitos para alcançar seus objetivos. Seu carisma físico decadente o obrigou a desenvolver habilidades discursivas impressionantes para que não fosse estigmatizado como um animal de estimação feio a quem todos aturam. Tyrion bebe demais e gosta de prostitutas, gosta de jogos de poder, sabe usar ironias e sátiras como ninguém: mas sente compaixão e sabe dar lições de vida impressionantes para aqueles a quem ele escolhe dá-las. Tyrion sente nojo das intrigas da corte mas gosta de simplicidade e caráter forte. Conseguem enxergar? Ele é um personagem inteiramente construído em cima de elementos que em histórias ‘comuns’, seriam contrários. Tyrion tem dentro de si elementos de heroísmo (bondade, como quando ajuda um paraplégico a voltar a montar cavalos criando um sela especial; e lealdade, como quando cumpre sua promessa de ajudar a engrossar o efetivo de um exército decadente de defensores das terras do reino) como elementos que normalmente são direcionados a vilões (usar-se de chantagens e redes de informações para coagir seus inimigos; conservar hábitos auto-destrutivos como bebedeiras e envolvimento com prostitutas) e tais elementos o tornam um personagem complexo e bem trabalhado.

Eu poderia citar outros inúmeros exemplos, mas acho que vocês já pegaram a idéia. Ser escritor em uma era em que tudo o mais já existe é saber trabalhar com clichês e transformá-los em elementos exóticos que sejam aceitáveis e bem explicados. O exótico não deve se tornar exagerado, deve ser, no mínimo, plausível ou então bem explicado o suficiente para que se torne plausível aos olhos do leitor, correndo o perigo de tornar-se ‘sem noção’.  Acha que não consegue explorar esta mecânica? Eu duvido muito que não consiga. Vá por tentativa e erro. Escreva, deixe o texto descansar e releia. Veja se os elementos estão coerentemente amarrados dentro do universo que você criou. Reescreva. Vá além, explore outro ponto de vista.

E lembre que George Lucas também errou. Tipo, Gungans? Sério?

Thomas começou a escrever com fanfictions

e ainda assim tentava ser original

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  1. fevereiro 14, 2012 às 5:27 pm

    Como diz uma amiga minha, não existem ideias originais, apenas referencias bem escondidas! Da pra contar uns mil personagens que nao eram nada e de repente descobrem que tem o poder para salvar ou destruir o mundo!
    E mais ainda, como diria Neil Gaiman, “O importante nao é a ideia, e sim o que você faz com ela”!

  2. fevereiro 14, 2012 às 5:53 pm

    Uma das melhores coletâneas de referências:
    http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/HomePage
    Precisa de inglês, claro:

    “Tropes are devices and conventions that a writer can reasonably rely on as being present in the audience members’ minds and expectations. On the whole, tropes are not clichés. The word clichéd means “stereotyped and trite.” In other words, dull and uninteresting. We are not looking for dull and uninteresting entries. We are here to recognize tropes and play with them, not to make fun of them.”

    O site serve até pra disputas amigáveis de escrita em parceria ou grupo. Eu já fiz o seguinte joguinho: passei pra outro escritor a tarefa de escolher 3 tropos desse site, e eu escolheria os outros 3; e então uniríamos os 6 tropos que teriam de aparecer obrigatoriamente num conto.

    Um exemplo seria trabalhar obrigatoriamente com “Dead Person Impersonation” (personagens que ocupam o lugar de falecidos) e “His Name is…” (quando um personagem começa a revelar algo mas é morto no meio da frase). Peguei esses dois tropos apertando “random”, e já me veio na cabeça a ideia de alguém do primeiro caso revelando sua verdadeira identidade para alguém que confia, mas interrompido por um tiro mortal.

    Enjoy!!!

    • renanbarcellos
      fevereiro 16, 2012 às 12:35 pm

      Porra, bem interessante mesmo o site. Mesmo que seja originalmente voltado para Tv, da para ver vários tropes que são usados em livros. O primeiro que caiu no random para mim foi, inclusive, um que eu já tinha usado: Did We Just Have Tea with Cthulhu?

      Esse trope se baseia em o personagem ser convidado para tomar chá, café, jantar ou almoçar com alguma criatura extremamente poderosa e que pode mata-lo sem esforço algum, mas que vai se comportar de forma polida e segundo a etiqueta.

      Acho que vários desses tropes acabam acontecendo em coisas que escrevemos espontaneamente, sem sequer percebermos que, de fato estamos fazendo uso deles.

      Valeu aí pela sugestão de site Arthur, ele é bem legal e eu nunca tinha ouvido falar sobre esse conceito de tropes (e sua diferença para com clichê)

  1. março 7, 2012 às 5:00 pm

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