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Criação de Personagens Orientada à Perguntas – Introdução

Visto que o blog tem como objetivo trazer material que seja de utilidade para escritores que por ventura venham a visitá-lo, me deparei com a tarefa de pensar em que tipo de tema poderia ser abordado. No início pensei em falar algo relativo à fantasia, que é a temática que geralmente escrevo, ou então até mesmo algo sobre ficção-científica, sobre o sub-gênero cyberpunk, o qual vim a exercitar nos últimos meses. Mas então cheguei à conclusão de que muito pouco havia sido falado sobre Holly Lisle, escritora inglesa que de certa forma foi a “inspiração” para a formação do grupo. Aliando isso à vontade de escrever algo que fosse de utilidade para escritores de todos os tipos, logo cheguei à conclusão de que iria escrever sobre personagens.

É desnecessário dizer o quanto personagens são importantes em uma história. Eles mostram os pontos de vista que apresentarão o leitor à história que a ser contada. Seguem o enredo a apresentam aquilo que veem, sentem e pensam. Contudo, é comum que os personagens de um enredo, protagonistas ou não, sejam utilizados sem estar em plenos potencial e capacidade.

Por muitas vezes observei em histórias, tanto de iniciantes quanto daqueles que já publicaram livros, personagens que de certa forma acabavam sendo “fantoches do destino”. Eles eram atirados nas mais diversas situações e a história seguia da forma que tinha de seguir, era como se, apesar de suas personalidades (raramente bem definidas), eles fossem obrigados a fazer o que precisasse ser feito para que a história continuasse em seus eixos.

É verdade que existem histórias em que realmente os personagens não passam de peões e tudo o que fazem está de acordo com os planos de outrem, contudo, a manipulação consiste justamente em criar um estímulo que cause a uma pessoa a reação desejada, desta forma, mesmo neste tipo de história (a não ser que se trate de alguma espécie de magia ou controle mental), dificilmente uma personagem faria algo que não fosse compatível à personalidade e histórico.

A personalidade de um ser humano está intimamente ligada com o passado, com o que se viveu  traumas, conquistas, perdas, brigas e medos, bem como convivência com pais e amigos, são pilares em que se sustentam a forma como encaramos o mundo e respondemos às adversidades. Segundo um ramo da psicologia, conhecido como abordagem cognitiva, um campo que se propõe estudar os processos mentais responsáveis pelo comportamento,  a segunda etapa da resolução de um problema – sendo problema qualquer tipo de situação em que se envolva a nescessidade de uma escolha – é desenvolver e enumerar soluções que mais tarde serão analisadas para determinar-se qual será a resposta para a situação. Segundo esta premissa, o desenvolvimento de soluções é dependente da memória da pessoa em questão, que irá recorrer ao seu conhecimento e vivência para organizar meios de solucionar o caso que tem diante de si (e personagens sempre tem uma questão a ser resolvida) para então determinar o mais apropriado para o problema que tem diante de si. Tais processos se baseiam apenas no passado da pessoa que, não tendo tido contato com situações semelhantes, terá um leque pequeno de caminhos a seguir e dependerá principalmente de seu insight, o que significa que agirá de acordo com o que conhece, com seu raciocínio, com sua criativade e com o que acredita.

Portanto, para se criar um personagem verossímil, é importante que se dê uma atenção especial a como ele viveu, pois será o que determinará a forma como ele irá superar (ou não) os desafios que vê pela frente. É importante ter em mente que nem sempre o personagem que você criou, caso realmente tenha sido bem criado, vai estar apto a tomar determinada decisão, por mais importante que ela seja, ao menos não de forma realista, pois seu histórico e personalidade impedirão que ele aja daquela forma. É importante que exista algo no passado do personagem que faça com que ele siga pelo caminho pretendido, ou que a história que ele apresenta vá aos poucos moldando-o e justificando suas ações. Ou que, no fim das contas, ele decida que rumo tomará a sua saga, afinal, ele é quem a vive e faz escolhas.

Tomemos como exemplo Eddard Startk de Guerra dos Tronos, por todo o livro ele é apresentado como alguém que presa a honra e o dever acima de tudo, muito de seu passado é mostrado e corrobora com isso e por muitas vezes correu perigo que não precisava pois a desonra não era uma de suas características. Não seria adequado se em algum momento Eddard simplesmente cometesse um ato de mentiroso ou que não fosse condizente com sua lealdade para a família e o Rei. Quando lhe é sugerido que minta, em prol da própria vida, ele só o faz quando a segurança de sua família é diretamente ameaçada e, mesmo assim, após muitas atribulações.

Muitos escritores começam a escrever suas histórias ou contos apenas com uma geral da personalidade de seu personagem e uma idéia vaga de seu passado. Deixando para o decorrer da escrita uma criação mais extensa e especifica sobre sua vida passada, acrescentando detalhes na sua criatura conforme as ideias vão surgindo, ou então simplesmente não adentram muito no passado do personagem, contudo, esta abordagem deixa muita margem para que se criem contradições ou momentos forçados, onde um personagem se comporta de uma forma e, futuramente, é apresentado um evento do seu passado que torna estranho as escolhas vividas. Isso acaba por gerar incongruências na história e mostra que o personagem, afinal, não esta muito bem definido, ou então que, simplesmente não é verossímil, que não parece uma pessoa de verdade, apenas um… personagem qualquer de livro, que é lançado de um lado para o outro e não tem realmente uma história de vida.

Esta série de postagens será dedicada a mostrar como é possível e interessante fazer a criação do personagem antes que história de um livro comece. Abordando pontos importantes na concepção dele enquanto pessoa, enquanto um ser que viveu, aprendeu e errou. Tomarei como base principalmente o livro da Holly Lisle, How to Create a Character Clinic, onde ela mostra um método que costuma utilizar, consistindo basicamente, fazer perguntas a serem respondidas e assim ir destrinchando a personalidade e o passado do personagem. As perguntas certas podem trazer o conhecimento necessário para saber de que, no fim das contas, é feito o personagem.

O livro usado como fonte me foi apresentado por Thales Borges, também da Taverna, e, curioso com o resultado que poderia trazer, resolvi seguir as dicas que são dadas e o resultado me foi muito satisfatório. Se antes eu tinha uma pagina e meia com um overview sobre o que eu imaginava do personagem, terminei com vinte e seis paginas, mostrando alguém que enfrentou problemas, teve medos, superou derrotas, perdeu gente querida, tem amigos, tem inimigos, conheceu lugares, aprendeu coisas novas, fez dívidas e que tem dúvidas, tornou-se um personagem… vivo. Não é exagero quando eu digo que acabei com material suficiente para escrever um livro apenas sobre ele.

No próximo post falarei sobre problemas, dificuldades e necessidades dos personagens. Não será uma tradução do livro, mas um texto com minhas palavras falando sobre pontos que são abordados no livro e coisas que li em outros materiais. No entanto, irei demonstrar os métodos e passos apresentados por Holly Lisle, bem como as tabelas, essas, traduzidas – além de abordar tópicos que ela comenta – para assim mostrar como é o processo dessa “Criação de Personagens Orientada à Perguntas” – termo criado por mim para facilitar a identificação e citação dessa técnica.

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