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O seu Universo e além

Este blog é orientado para temas relacionados à escrita de ficção fantástica e científica, como já foi deixado bem claro em posts anteriores. O motivo é bem simples: porque a gente curte pra caramba literatura de ficção fantástica e científica. Não deve ser surpresa para ninguém que a maior parte dos livros na minha estante, as revistas que assino e os filmes que assisto seguem essa estética. Mas tanto do ponto de vista de escritor amador como do ponto de vista de um acadêmico da área de Letras, quero deixar bem claro um ponto: não existe erro maior para um escritor do que ler apenas o que escreve.


Estando em um curso com várias disciplinas voltadas à literatura, é inevitável ter que ler uma hora ou outra algum livro para o qual eu torço o nariz. Um deles foi, com o perdão do gosto pessoal, Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Gosto de livros com clímax bem definidos, conflitos excitantes ou debates que chamem atenção – nenhum dos quais podem ser encontrados nessa obra canônica de Woolf. Mrs. Dalloway segue uma linha completamente contrária com a literatura que gosto – a narrativa percorre um único dia na vida da protagonista, no qual ela tem por objetivo organizar uma festa. O livro é autobiográfico e foi escrito nos períodos finais da vida da autora (o que ela deixa explícito com o clima de melancolia extrema empregado). Enfim, eu tive que ler o livro muito a contragosto para uma avaliação da faculdade. Lembro que na época o terceiro livro da Trilogia Tormenta de Caldela havia acabado de sair, então tinha mais um motivo para não gostar de Mrs. Dalloway: ele bloqueava o caminho entre mim e o que eu realmente queria estar lendo.


Porém, se eu não tivesse lido o pedante Mrs. Dalloway, nunca teria encontrado uma de minhas ferramentas favoritas para a hora de colocar idéias no papel: stream of consciousness. O fluxo de consciência é utilizado para tentar colocar no papel, da forma mais fiel possível, os pensamentos e emoções dos personagens utilizando-se de metáforas e outras figuras de linguagem. O resultado é um parágrafo complexo e difícil de ser compreendido que a literatura cult adora. Gosto de usar stream of consciousness em alguns textos meus que tenham um teor mais psico/ filosófico, mas o ponto em que quero chegar é que se eu tivesse me negado a ler Mrs. Dalloway, eu nunca teria descoberto essa ferramenta (além de provavelmente ter que repetir a matéria).


Escritores precisam, antes de qualquer outra coisa, se acostumar a explorar a diversidade que existe em volta de si, tanto em relação a povos e culturas da vida real como para com diferentes temáticas literárias, para que possam simular a diversidade que existe no mundo em suas obras. E pode ter certeza absoluta que esta é a chave para a qualidade dos romances de vários dos ícones de fantasia/ sci-fi de que tanto gostamos. Tolkien usou seus conhecimentos de filologia acadêmica para criar todas as línguas das criaturas inteligentes da Terra Média. C. S. Lewis, amigo pessoal de Tolkien, deixou evidentes fortes influências da Bíblia e d’As Mil e Uma Noites em sua série As Crônicas de Nárnia.


Também é um erro pensar que esta regra de ouro se aplica apenas a textos literários. Ler apenas textos literários, além de lhe deixar alienado em relação às andanças do mundo além deste monitor aí, irá lhe cortar o conhecimento do que dentro do meio acadêmico chamamos de tipos textuais: as diferentes ‘formas’ que um texto pode assumir para se fazer entender, como poemas, notícias, emails/ cartas, propagandas, crônicas e daí além, até mesmo filmes. Por exemplo, saber escrever notícias significa que quando seus personagens forem atacados pelo sensacionalismo da mídia local, a mídia local realmente irá se parecer com a mídia tendenciosa que vemos por aí, e assim sendo será mais verossímil. Um belíssimo exemplo desta relação pode ser visto em Carrie, a Estranha, estréia do mestre Stephen King na publicação de romances. O livro conta a história trágica da adolescente psiônica Carrie como se fosse descrita por um pesquisador em um estudo de caso acerca de um novo objeto de estudo (poderes telecinéticos) que os acontecimentos provocados pela histeria de Carrie mostraram ao mundo. O livro inteiro é o retrato do casamento perfeito entre uma história envolvente e o modo como essa história envolvente seria descrita por alguém que tem como objetivo apenas constatar fatos – e não contar realmente a história.


No post da terça passada falei que o melhor jeito de simular originalidade é pegar dois elementos que não seriam normalmente encontrados juntos e empregá-los no mesmo objeto de maneira coerente. O mesmo princípio se aplica aqui. Leia A Ordem do Discurso de Descartes e considere utilizar os conhecimentos do filósofo em sua vantagem na hora de construir a argumentação de defesa de um réu em um tribunal. Leia Os Sertões, de Euclides da Cunha, e imagine-se utilizando a mesma descrição minuciosa da Bahia na época da Revolta de Canudos em sua fanfiction de Naruto, para descrever a Vila da Folha. Leia O Universo Dentro de Uma Noz, de Stephen Hawking, e utilize as teorias de física experimental do autor para explicar a fenda temporal pela qual a nave espacial do personagem principal voltou no tempo.


Leia até a Veja e perceba como o uso de certas palavras em certos lugares muda completamente o modo como a notícia será recebida (“Grupo de sem-terra ocupa latifúndio abandonado” e “bando de sem-teto invade propriedade particular”).

Thomas não gosta de admitir que no final

a faculdade ajudou em alguma coisa

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