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Criação de Personagens Orientada à Perguntas – Parte 2

Antes de começarmos a, de fato, entrar no processo de perguntas e respostas que é um dos pilares da construção de personagens apontada por Holly Lisle, é importante ter em mente dois aspectos presentes nos seres humanos que colaboram para torná-los complexos e únicos e que, portanto, deveriam ser observados com certa atenção ao delinear o temperamento e o histórico de um personagem. Este post falará principalmente de personalidade, problemas e comportamento.

Personagem, personalidade, pessoa. Todas são palavras que em algum grau derivam do latim à partir de persona, que por sua vez carrega como significado alusões à traços pessoais, representação de uma pessoa e caráter. No inglês, a coisa não é muito diferente, a palavra character pode vir a significar tanto personagem quanto caráter.
Mas o que é Personalidade?

Dentro da psicologia personalidade é um termo que abrange diferentes significados, a depender a escola ou corrente que esta sendo observada, mas de uma forma geral, costuma estar relacionada com uma noção de o que representa um determinado ser humano. No senso comum, costuma ser utilizada para se referir a um conjunto de caracteristicas marcantes que acaba descrevendo alguém e o diferenciando dos outros ao seu redor.

Personalidade não é algo com que nascemos, mas algo de formação gradual e que acaba por ser único para cada individuo. É formado por suas vivências, por suas experiências, os problemas que passou, por seus anseios, medos e aquilo que ainda precisa enfrentar. No inicio de How To Create A Character Clinic Holly Lisle diz que:

“Personalidade (character) não se forma nos momentos em que estamos felizes. Personalidade se forma quando as coisas começam a dar errado.”

Talvez a personalidade humana não se forme apenas nos momentos em que as coisas começam a dar errado, ou quando estamos mal, ou quando enfrentamos alguma coisa e perdemos. Mas é indubitável que estes momentos contribuem de modo expressivo para formar o modo como enxergamos as coisas e enfrentamos o mundo. Admitindo que o processo de analisar algo e resolver uma situação compreende uma passagem por situações semelhantes que tivemos que enfrentar no passado, podemos constatar que nossas falhas teriam uma grande influencia na forma como lidamos com o que temos à nossa frente, pois antes de acertar uma única vez, é comum termos errado tantas outras e os problemas trazidos por uma falha nos assombram muito mais do que os benefícios trazidos por um acerto.

Dito isso é importante ter em mente ao criar um personagem, que ele errou no passado. Ele tentou realizar desejos e ambições e falhou, que ele se feriu ao tentar alcançar algo que almejava, ou foi posto a prova diante de uma situação, mesmo não sendo de seu interesse, e não atingiu as expectativas exigidas. E essas falhas constroem muito de quem é uma pessoa, pois daí saem medos, vergonhas, reservas e preferências que em muito moldam a forma como um ser humano se comporta. Alguém que certa vez se afogou ao tentar provar para os amigos que podia nadar naquele lago talvez começasse a querer provar-se capaz, ou então ter reservas a cerca entrar em água por temer passar vergonha. Um guerreiro que foi surpreendido pelas costas dentro de um bar pode se culpar por ter sido pouco cauteloso e passar a sentar apenas de costas para a parede. Claro que são observações simplistas, que não mostram a enorme gama de particularidades que podem afetar a resposta psicológica de uma pessoa em uma situação como essa, mas são apenas exemplos.

Um personagem bem construído deve possuir esses momentos de fraqueza, situações em seu passado (e também em seu futuro) onde ele foi desonesto, onde ele foi invejoso, onde ele falhou em alcançar algo que almejava. Para serem verossímeis, todos personagens, e não só os vilões ou coadjuvantes devem ter defeitos, erros e acertos. Um herói precisa ter momentos de inveja, ou que ele mente apenas para melhorar sua imagem, bem como um vilão necessita de momentos de inocência e atos de solidariedade, afinal, sendo ele um ser humano, um dia sua personalidade não estava formada e ele não era cruel como agora, talvez ele veja nas crianças órfãs seu passado sofrido e tenha pena ou se recuse a causar-lhes mal.

Mesmo aqueles protagonistas que se mostram como pessoas sobretudo boas, compreensivas, corajosas e que estão sempre dispostas a ajudar os amigos podem fazer atos de caridade motivados por motivos não tão altruísta assim. Certas correntes de psicologia acreditam que todo ato altruísta é, na verdade, motivado por egocentrismo, onde, ao ajudar, a pessoa estaria fazendo porque se sentiria bem com aquilo. Afinal, quem nunca ouviu frase semelhante: Eu não agüentava mais, tive que ajudar aquele rapaz! Reparem o uso do “eu” na frase.

Um personagem que pode dar um bom exemplo de tais questionamentos é Shinji Mimura, de Battle Royalle. Shinji é muito bom em quase tudo o que faz. É o melhor no basquete, é excelente hacker, um dos mais inteligentes da sala, faz com que todas garotas se apaixonem por ele e possui um raciocínio rápido. No entanto Shinji não é esnobe ou de se gabar. Esta sempre pronto para ajudar os amigos ou aqueles que parecem ser indefesos, todos consideram Mimura uma boa pessoa e um companheiro leal. Contudo, no fundo o seu ímpeto de sempre ajudar os outros surge porque ele não acredita que eles sejam capazes de realizar uma tarefa com a qualidade ou presteza que ele gostaria. E seu melhor amigo é alguém que, em geral, é considerado desastrado e não muito confiante, o que enaltece as qualidades de Mimura, sendo essa escolha consciente ou não.

Coisa semelhante ocorre no jogo Persona 4, onde os personagens antes de conseguirem liberar os poderes inerentes às suas personalidades precisam enfrentar suas “sombras”, que seriam um lado de seu ser que não conseguem aceitar. Chie Satonaka é a melhor amiga de Yukiko Amagi, mas ela tem inveja e se sente inferior a Yukiko, porém a colega muitas vezes precisa de apóio, precisa da amizade de Chie, o que faz com que a personagem tenha certo prazer quando vê a tão imponente, importante e querida Amagi precisar dela.

A possibilidade de atos puramente altruístas existem, embora diversas escolas da Psicologia briguem a respeito disto (os humanistas, por exemplo, acreditam que o humano é naturalmente altruísta), no entanto é inverossímil que todos os atos de determinado personagem sejam puramente altruístas, inclusive, a maioria tende a não sê-lo, devido não só à conspiração da própria psique humana para se beneficiar quanto pelas influencias da sociedade que, teoricamente, tendem a trazer hábitos ruins. Mesmo personagens que viveram longe do mundo civilizado apresentariam comportamentos egoístas, contudo, já que seus ambientes seriam potencialmente mais hostis e, no mínimo, influenciariam a atos destoantes com o que é comumente observado em cidades. É importante citar que mesmo um ato baseado no egoísmo pode trazer boas ações, alguém que segura uma porta num momento de irritação, mesmo que o faça para sentir-se bem com o ato, estará auxiliando quem quer que venha a receber a ajuda.

Portanto, mesmo que um personagem seja criado com o intuito de evocar a imagem de uma pessoa boazinha, que segue as regras, ajuda os outros e sempre esta atento para a nescessidade alheia, é devido ter atenção com os motivos para este personagem estar agindo de tal forma. Algo em seu passado precisa explicar tal característica e ele necessita de motivos além de simples boa intenção para tais atos. O oposto também é verdadeiro, vilões, na maioria das vezes, não nascem malignos, cruéis e sádicos, algo tornou eles assim e, muito provavelmente, eles não se vêem como pessoas maléficas, mas encaram práticas normalmente não aceitas devido as concepções que suas vidas levaram a tomar. Ao criar personagens profundos deve-se tentar fugir do maniqueísmo.

Como ultima análise, mesmo personagens muito mais elevados, ou poderosos que humanos, dificilmente terão atos de pura bondade ou altruísmo, pois terão um ponto de vista muito díspar que de meros seres como nós, voltando-se para pensamentos e idéias que não compreenderíamos de todo e que não poderíamos aceitar. Vide Dr. Manhattan, de Watchmen. Por ser uma criatura com poder e conhecimento tão além de um ser humano comum, com o tempo passou a não mais entender sentimentos e ações humanas, afinal de contas, ele enxergava através do tempo.

No próximo post, a Hierarquia de Nescessidades de Maslow e o primeiro fluxograma de Lisle.

Renan  Barcellos, que tambem pode colocar estas

frasesinhas na assinatura.

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