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Raças não-humanas – conceito de preconceito

No mundo real o conceito de ‘raça’ caiu faz tempo (por mais que o preconceito racial ainda esteja a todo vapor, infelizmente), sendo substituído pelo muito mais aceitável termo ‘etnia’. A antropologia aceita que dentro de um grupo étnico, seus membros tem em comum um mesmo padrão geral de aparência, cultura folclórica, língua e maneirismos, e que tais aspectos são diferentes de grupo para grupo, criando choques culturais. Isso todo mundo já está cansado de saber: Essas diferenças NÃO fazem um grupo melhor do que outro, apenas acrescentam diversidade. Esse é o motivo de nós, brazucas, não entendermos por que raios japoneses são tão submissos a autoridade, o por que de médio-orientais serem tão propensos a conflitos, o por que de norte-americanos serem tão… bem… norte-americanos. Isso sem falar nas mais do que notáveis diferenças físicas entre, digamos, um caucasiano canadense e um negro sul-africano. Lógico que com a globalização, diversas etnias se mesclaram, unindo-se, extinguindo-se e criando ainda novas etnias, mas a idéia geral é que por nascermos em povos diferentes, somos indivíduos diferentes.

Em nosso mundo, essas diferenças não devem ser motivo para pré-julgamentos e diferenças de tratamento uma vez que por mais acentuadas que sejam, elas não influenciam nos direitos e deveres de cada cidadão do mundo. Em mundos de fantasia medieval que incluem raças não-humanas, quando esse tipo de respeito acontece, o próprio propósito de existirem as tais raças não-humanas se perde e o mundo fica completamente sem-graça.

Confuso? Vou tentar explicar melhor. Pense desta maneira: Se em um mundo em que vivem apenas seres humanos, seres biologicamente idênticos, existem diferenças étnicas, em um mundo em que existem vários tipos de criaturas com mesmo nível intelectual e tecnológico e que sejam biologicamente COMPLETAMENTE diferentes, estas diferenças serão muito, mas muuuuuuuuito mais acentuadas.

Vamos falar sobre o quarto livro d’As Crônicas de Nárnia, O Príncipe Caspian, uma das obras primas do já incansavelmente citado por mim C.S. Lewis. Neste livro, que acontece alguns milhares de anos após o primeiro, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, Nárnia foi invadida e colonizada por telmarinos, humanos do país vizinho de Nárnia. Uma linhagem de reis já havia se estabelecido em solo narniano e as criaturas mágicas e animais falantes que aparecem no primeiro livro há muito já haviam sido relegados ao posto de lendas e histórias para dormir. Com a volta dos quatro grandes-reis de Nárnia e do aparecimento de um rei mais receptivo à existência de criaturas mágicas, uma revolução acontece: as criaturas mágicas saem de seus esconderijos, se revoltam e tentam destronar o rei telmarino usurpador. O ponto principal aqui é o medo que os telmarinos (uma raça completamente humana) tem dos narnianos, que gera ódio e que gera preconceito. Neste exemplo, o preconceito originou-se de puro medo e vontade de extinguir a origem do medo. O humano tem por característica temer o que não conhece, portanto em determinados cenários esta estratégia funciona muito bem, apesar de ser simples e objetiva.

Porém este recurso tem uso limitado: pode ser usado apenas quando a tal nova raça é novidade. Quando ela já existe há muito tempo, outros recursos devem ser explorados. Vamos usar O Senhor dos Anéis, de J.R.R. ‘Deus’ Tolkien como exemplo, então.

No mundo criado por Tolkien, existem diversas raças semi-humanas que vivem em uma paz fragilizada. Temos elfos que acham anões criaturas intratáveis, teimosas e impetuosos. Temos anões que acham elfos vagarosos e presos a cuidados desnecessários. Temos humanos que são tratados como crianças por ambas. Temos hobbits que temem as raças e se pormenorizam a todas elas. Nos livros da série vemos todas as raças unidas contra um inimigo que ameaçava a própria realidade, mas em um mundo sem Sauron, o orgulhoso anão Gimli e o impetuoso elfo Legolas nunca conseguiriam partilhar a mesma mesa sem sacar flechas e machados contra o outro. Cada raça está presa a um tratado ideológico próprio e o conflito ocorre quando uma atitude motivada por este tratado ideológico ultrapassa a zona de conforto de outra. Neste ponto, debates, discussões, insultos e guerras são travadas apenas por que uma raça não consegue viver com a idéia de compartilhar o mundo com uma outra tão “incoerente”.

Este é o tipo de preconceito mais comum. A simples existência de uma outra raça tão diferente é o suficiente para incitar ódio. Muitas vezes os personagens são envolvidos nesta trama de preconceito ao adotarem apenas um ponto de vista como verdade, sem tentar olhar o outro lado da moeda. Legolas e Gimli encontraram um no outro uma amizade ferrenha por que aprenderam que tinham muito mais em comum do que o que tinham ouvido falar um do outro permitia achar. Muitas vezes esse deve ser o caminho trilhado pelo herói para que ele mesmo se torne um herói de verdade, que não teme algo apenas por medo ou por ignorância, mas que entende que a verdade tem facetas demais para que apenas uma balança sirva de peso comum para todos os julgamentos.

A discriminação é sempre algo ruim, não importa se na realidade ou na fantasia e do mesmo modo a quebra de um preconceito e a compreensão de diferenças é sempre algo bom.

No meu próximo post vou escrever um pouco mais sobre o efeito da inclusão de raças não-humanas em cenários de fantasia e ficção científica, então fiquem no aguardo. 😀

Thomas é contra preconceitos mas se mantém intolerante

em relação a yaois de Senhor dos Anéis

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