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Comece a carroça pelas rodas, já diria minha avó.

Nas últimas matérias que escrevi, estive deixando bem claro meu ponto de vista: ler ajuda – e muito – na hora de escrever. Lendo bastante você visualiza na prática várias opções estéticas que enriquecem o texto e auxiliam o leitor na hora de compreender o que exatamente aconteceu naquela descrição intrincada de uma batalha campal. Além disso, ler aumenta sua carga de cultura, sua visão de mundo se expande e muitos preconceitos são deixados de lado. Em suma, ler é bom pacas se você quer ser uma pessoa antenada e de brinde, em boa parte, te ajuda na hora de escrever sua narrativa.


Porém tem vezes que essa estratégia não funciona. Isso depende de pessoa para pessoa, mas esse bordão de terceiro ano de ensino médio de ‘bons leitores são sempre bons escritores’ nem sempre é verdade. Como faço licenciatura em Letras, aprendi bastante coisa acerca de como ensinar alunos a escrever melhor – e não posso negar que leitura constante está presente na maior parte das técnicas – mas sempre surge um ou outro pobre-coitado que já leu a obra completa de Graciliano Ramos e fez comparativos com Freud e Jung e ainda se bate para escrever um artigo de opinião para uma redação de vestibular.


Eu confesso que eu sofro do oposto: tenho problemas para ler qualquer coisa criticamente (em um nível mais profundo, diriam alguns), mas consigo ser minimamente competente na hora de escrever. Não tenho nenhuma técnica para isso, apenas consigo colocar o que penso no papel sem problemas de procura de vocabulário, com direito a firulas e tudo. Consigo manter uma narrativa coesa na cabeça enquanto digito – e sinceramente, boa parte das minhas notas em provas na faculdade se devem a isso.


Mas e quando não dá? E quando você lê, lê e lê e não consegue fazer a bendita narrativa de batalha campal? Aí eu tenho uma boa dica: comece pelo básico.


Pense na escrita como um desenho. Qual a primeira coisa que fazemos em um desenho? Um esboço. Veja bem: ao contrário de um rascunho, que é meramente um produto descartável – um treino, por assim dizer – um esboço é uma base definitiva para o que será um produto final espetacular. O esboço em uma narrativa é a idéia básica, o acontecimento central que irá reunir todos os outros elementos da ‘cena’ que será desenvolvida. No caso do exemplo que eu estou teimando em usar nessa matéria, uma batalha campal. Então temos isso:


Uma batalha campal estava acontecendo.

Primeiros passos de um desenho.

Comece sempre pela base que irá sustentar todos os outros detalhes do texto. Ou do desenho, sei lá.


Claro que uma idéia central as vezes não pode ser resumida a uma oração, mas respeitadas as proporções, a estratégia funciona, prometo. Pois bem, temos a idéia central, a informação essencial sem a qual não haveria um evento a ser narrado. Qual a segunda parte? É deixar o esboço um pouco mais completo colocando informação adicional na idéia-base. O que motivou a batalha? Onde estava acontecendo a batalha? Quem eram os oponentes? Dois reinos orgulhosos e tradicionais, com armaduras garbosas ou simples bandos de bárbaros competindo por um território? Que tipo de batalha era? Uma batalha galante e cavalheiresca ou um massacre animalesco? Usando as informações adicionais citadas, vamos elaborar um pouco mais a idéia-base.


Uma batalha campal estava acontecendo no deserto de areia. Dois clãs de beduínos haviam entrado em choque pelo uso de um oasis que aparentemente encontrava-se no território de ambos. Os dois lados da peleja usavam armaduras parecidas, cobertas por tecidos finos de cores fortes. Havia um respeito mútuo entre os guerreiros, que apenas pelo fato de estarem batalhando, viam uns nos outros oponentes de valor.

Adivinharam o que era aquele primeiro esboço?

Adicione informações importantes até que ele seja alguma coisa quase totalmente diferente de um nariz. TEXTO. Quer dizer, texto. Vocês entenderam.


Muito melhor, não é? Conseguimos construir cinco linhas a partir de uma oração sem muito esforço, apenas pensando nas informações pertinentes que deveriam fazer parte da narrativa. Note que o texto ainda está ‘seco’, sem dramaticidade. Como nossa meta é uma narrativa romenceada, ainda não chegamos no ponto esperado. O terceiro passo é ‘enfeitar’ a narrativa com elementos de descrição que, para um leigo, seriam descartáveis ou desnecessários. Literalmente, vamos enfirular o texto, tornando-o mais prazeiroso para a leitura. O resultado seria este:


Uma batalha campal estava acontecendo no inclemente deserto de areia, que sob o Sol alto e branco, brilhava molhado na areia dourada, faiscando-a. Os dois orgulhosos e taciturnos clãs de beduínos haviam pego em armas pelos direitos de uso de um oásis paradisíaco – e por que não irônico, no meio da cruel imensidão arenosa – que aparentemente encontrava-se no território de ambos. Notava-se ali os laços que uniam os habitantes de cada clã, uma vez que companheiros não feriam companheiros apesar das armaduras usadas não identificarem um lado ou outro: de fato, para um observador leigo, pareceria apenas uma selvagem briga de cada um por si. Viam-se panos grosseiros e sedas sob o couro fervido, nas mais variadas cores e trejeitos, largos sob o corpo. Aparentemente mais um padrão, sob a cabeça de todos um elmo envolto em panos para amainar a flamejante mão solar que infligia seus raios sobre cabeças de um e de outro imparcialmente. Apesar dos cavalos relinchantes que espumavam suor branco e dos gritos de guerra na língua fluída e confusa do deserto, sentia-se um respeito mútuo entre os guerreiros, que apenas pelo simples fato de estarem batalhando, viam uns nos outros oponentes de valor, nunca recorrendo a técnicas desonrosas e golpes baixos para ganhar o oponente. Um exame mais atento mostraria que apesar de parecerem confusas, as lutas desenvolviam-se quase como duelos, sendo que dois contra um era algo raríssimo – tal era o respeito que a cada inimigo colocado abaixo, uma curta, sussurrada e rigorosa prece era dita pela alma do valoroso oponente que havia dado tão honrada batalha.

O Nariz torto.

Por sinal, se estivéssemos realmente falando de desenho, eu nunca passaria do primeiro exemplo. Na verdade, acho que nem chegaria nele.


E aí está. Uma descrição geral dos comos, por ques, aondes e dos modos como a nossa batalha estava sendo travada. Que tal o resultado? De uma oração simples e direta conseguidos criar o que seria um ótimo parágrafo introdutório ou explicativo. Este não é meu estilo na maior parte das vezes: prefiro uma maior fluidez dos acontecimentos à uma descrição mais detalhada, mas decidi criar um parágrafo descritivo para que o exemplo ficasse mais palpável.


Lógico que este foi apenas um exemplo. Eu demorei mais de meia hora para criar a última parte e ainda assim toda vez que leio encontro alguma coisa que pode ser melhorada. O objetivo aqui é que você, leitor, note que nem sempre (a bem da verdade, quase nunca) a primeira escrita está impecável. O meu principal ponto com este exemplo é que no geral, podemos escrever orações simples que orientem os rumos da narrativa e depois voltar à elas e adicionar detalhes e recursos estilísticos de descrição que emprestem ao texto literariedade. Normalmente esta técnica acaba sendo aplicada inconscientemente, mas decidi que seria uma boa mostrar um passo a passo.

Thomas preferia descrever um massacre

animalesco do que uma batalha honrada.

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