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Combates, lutas, batalhas: exemplos de caras que não usaram.

Eu ia começar este post falando sobre um elemento essencial na escrita de ficção científica e/ou fantasia, mas ao invés disso, resolvi tomar o lado contrário. Eu ia falar da importância de batalhas, lutas, combates e termos afins, mas resolvi falar exatamente o inverso: resolvi dizer os motivos pelos quais acho que este elemento é muitas vezes dispensável.

É até deselegante, não é?

Aviso: vou usar um exemplo batido. As Crônicas de Gelo e Fogo, do “Tolkien” americano George Martin são um ótimo exemplo. Sim, temos matanças e porradarias épicas aqui e ali, mas em todos os quatro livros lançados até hoje em terras tupiniquins (de quais eu sou um orgulhoso dono), notei um padrão: George cumpriu a promessa que havia feito no início da série ao escrever uma história épica – por favor, que ninguém discorde da qualidade d’As Crônicas hoje em dia em relação a quase todo o material literário de fantasia contemporâneo – em que o foco estivesse na intrigas políticas (e suas repercussões no mundo) geradas por personagens principais da aristocracia de Westeros muito mais do que em lutas e batalhas gloriosas. Quantas batalhas não vimos sendo travadas nas reuniões do conselho? Quantas batalhas não vimos sendo ganhas por uma informação crucial em um momento crítico? Quantas batalhas não vimos acabando com um veneno ardilosamente administrado? Quantas batalhas não vimos sendo travadas entre as pernas de uma donzela real? George Martin consegue colocar a ansiedade, velocidade e seja lá o que for que faça de uma luta algo emocionante quando descrito em um pedaço de papel em uma simples conversa cheia de significados escondidos em meias palavras e eufemismos. Claro, existem batalhas dentro dos livros (e Martin também consegue narrá-las tirando o fôlego do leitor), mas a maior parte delas é omitida e seus resultados são levados a nosso conhecimento através do artifício do mensageiro.

O que é o tal do artifício do mensageiro? Ele era usado nas peças gregas quando algo importante acontecia dentro da trama da peça enquanto outros personagens estão em cena. O esqueça é bem alto-explicativo: enquanto os outros personagens interagem normalmente na peça, um mensageiro aparece e dá o recado de algum acontecimento importante que tenha se dado durante aquela cena. Dessa maneira, guerras eram ganhas e perdidas, herdeiros morriam e nasciam, donzelas eram defloradas e casavam sem que isso precisasse ser mostrado explicitamente no palco. Martin usa o mesmo recurso, notem bem. Quando não é literalmente um mensageiro que diz o que acabou de acontecer do outro lado do reino, uma fofoca, um bilhete, um mero comentário nos dá a informação que faltava para mais uma peça no quebra-cabeça da trama. O problema com esse tipo de artifício é que o escritor precisa ser tão competente quanto Martin para que a excitação de uma cena de batalha seja transferida para outras cenas, de forma que o texto não fique entediante ou sem excitação.

Outro ótimo exemplo está no ótimo livro 1984, de George Orwell. Este é, talvez, um dos primeiros romances de ficção científica que foram canonizados pela academia com literatura, tal o seu clima de forte crítica social e significados subentendidos. Na trama, um estado totalitário baseado na ausência de emoções e opinião pessoal fora instaurado na Inglaterra, e acompanhamos algum tempo na vida de um empregado de tal governo que acaba por se tornar um dissident. No entanto, cuidado ao ler 1984. Ao invés de uma história emocionante com clima de V de Vingança (cuja maior inspiração foi, por sinal, 1984), com robôs caçando rebeldes e heroísmos impossíveis ou uma teia de intrigas alarmante, você irá encontrar textos e mais textos com opiniões e impressões do personagem acerca do que acontece ao seu redor, em teor de crítica melancólica por que ele sabe que, por ser um dissidente, sua vida será beeeeeem mais curta do que o prognóstico. É uma ótima literatura, mas não um ótimo livro de ação, então cuidado. No entanto, Orwell consegue nos fazer imaginar com perfeição a opressão e o sentimento de ignorância vivido pelo povo dentro do estado totalitário fictício. E em meio de uma ótima literatura, a cena que mais chega perto de ter uma luta é quando o personagem principal é preso sem apresentar resistência. Geroge Orwell criou em 1984 um livro de perfeita ficção científica do tipo que não se encontra por aí: com muito mais história e ambientação do que lutas pela vida e heroísmos para libertar a nação.

Qual semelhança com OUTRO líder totalitário europeu NÃO é mera coincidência.

Em mais um exemplo de ficção científica, vou citar Eu, Robô, do mestre Isaac Asimov. Sim, tem aquele filme com o Will Smith – e que baita filme, diga-se de passagem – mas no livro não temos nenhum exército furioso de robôs querendo dominar a humanidade. Ok, temos, mas esta é apenas uma entre nove histórias de impressionante qualidade acerca da lógica que existiria caso a robótica fosse uma ciência tão avançada como hoje em dia ameaça ser. Sem apelar para um detetive ousado enfrentando o muito bonito exército de robôs, o cada história do livro discorre acerca de problemas de lógica robótica que levaram os robôs a criar uma nação completamente independente da mão humana usando a própria lógica criada pelos humanos contra eles. Isaac Asimov discorre acerca de como seria uma sociedade futurista realista: com muito mais discussões e reprogramações de circuitos do que guerras contra nossos próprios Monstros de Frankenstein.

A dinossáurica (e tão INCRIVELMENTE LEGAL quanto dinossauros no geral) versão original de Eu, Robô...

... E seu parente blockbuster modernex.

O que eu quis mostrar com essa matéria é que existem brilhantes histórias que podem ser contadas sem que o autor descreva nem mesmo um soco. Claro, elas são mil vezes mais complicadas de serem escritas e principalmente de serem interessantes para o grande público, mas por que não tentar?


Thomas só acha que lutas são dispensáveis

por que sofre quando tenta descrever uma

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  1. Edrei D. Ferreira
    março 21, 2012 às 11:02 am

    Finalmente um comentário aqui…
    Este post foi particularmente interessante, pois já vi muitos amigos menos adeptos à leitura desistirem de ler alguma (ótima) recomendação só por não conterem alguma espécie de batalha épica.Eu ainda não tive o prazer de ler As Crônicas de Gelo e Fogo, mas eu sempre quis… E agora então sinto ainda mais vontade. Porque por mais que gostemos de batalhas incríveis em cenários de tirar o folego, é bom ler algo diferente e às vezes.
    Ótimo post Thomas.
    De hoje em diante prometo comentar mais 😀

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