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Chega de falar de heróis

Vilões. Em minha opinião, mais do que os heróis (em geral um bando de pirralhos mimados com mania de grandeza e um ou outro cachorro idiota), eles são o ponto de fusão de qualquer história. Heróis não seriam necessários se não houvessem vilões para serem enfrentados – e normalmente, junto com vilões, uma horda ou outra de subalternos, contratados, aliados, bichinhos de estimação satânicos e variantes. Vilões são, em muitos exemplos (e em geral, são nesses exemplos que estão os melhores vilões) mais apreciados pelo público que os heróis. Não é raro que vez ou outra nós torçamos para que o vilão vença – e em várias ocasiões a pedantice do protagonista ajuda. Porém, o que é um vilão? É nesta pergunta que vou me prender no post de hoje. No material que leio por aí vejo muita confusão com o conceito por trás do termo.

MUAHAHAHAHA

Um vilão é, antes de mais nada, uma pessoa que se comporte como tal. A frase parece redundante mas você verá, meu bondoso leitor, que faz mais sentido do que parece.


Para alguém comum, um vilão é a pessoa que pratica maldades, não importando suas motivações. Porém vamos analisar o conceito de maldade: consideramos maldade um ação ou atitude ou até mesmo um ponto de vista que vá de encontro a um contrato social pré-estabelecido – e este contrato tem suas fundações em uma ideologia dicotômica de certo/errado. Ou seja, uma atitude que esteja contra o que acreditamos ser o aceitável. PORÉM vejo que este conceito simples e raso está cada vez mais entrando em desuso. Vamos exemplificar:


O glorioso, carismático e pegador Capitão Jack Sparrow, vivido nas telonas (e no meu caso em uma tela não tão grande assim) pelo excelente ator Johnny Depp. Jack é, sem dúvida, um herói. Ele combate o mal, luta pelo que é correto e por mais que titubeie em uma hora ou outra, não temos dúvidas que ele é bondoso. Porém, em Piratas do Caribe (e não estou falando apenas de UM dos filmes da franquia) vemos ele traindo a confiança de seu “parceiro” William Turner (Orlando Bloom) repetidas vezes, tentando inclusive traçar a amada mulher do mocinho Will, a tentadora Elizabeth Swann (e quem pode julgar o coitado, sendo ela ninguém menos que Keira Knightley?). Leitores, vejam bem: por mais que Jack seja sempre visto como um herói, essas atitudes não deveriam fazer dele… um vilão? Tais atitudes, quando tomadas pelo nosso querido Capitão Jack, nos fazem, no máximo, achá-lo incrivelmente engraçado. Nessas horas somos como nossas avós olhando a gente quebrando um vaso e falando com um meio sorriso “ora, mas que moleque travesso!”.

Covardia não é bem algo... heróico. E a bem da verdade, é uma das definições de Jack Sparrow.

Em suma, para ser vilão não basta praticar vilanias. A maldade precisa estar nas ações e na linha de pensamento do personagem, como vemos no Coringa da mais nova franquia cinematográfica do Batman, trazido à vida pelo finado Heath Ledger – e que antes dos filmes apareceu na HQ O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Em minha opinião, ele é o melhor vilão que qualquer ser humano já inventou. Nada define o “novo” Coringa como a célebre frase do fiel mordomo Alfred: “Alguns homens, senhor Bruce, querem apenas ver o circo pegar fogo”. Por que este é meu vilão favorito mesmo? Por que ele pratica maldades pura e simplesmente por que gosta. Por que acha que o mundo precisa de maldades. Por motivo nenhum. O Coringa, no final do filme O Cavaleiro das Trevas (SPOILER ALERT para os monges tibetanos ilhados em uma caverna no topo de um pico ancião que ainda não assistiram o filme) deixa claro para Batman que não pretendia em nenhum momento matá-lo – ele apenas achava que era incrivelmente chato que um herói tão valente e determinado como o Batman não tivesse um vilão à altura (FIM DO SPOILER ALERT e por favor monges, assistam a droga do filme, ele é muito bom). Além disso, o Coringa é implacável: não teme matar crianças, velhas, trabalhadores e nem mesmo seus aliados. Ele apenas sente que a maldade é necessária sem nenhuma ideologia cultuada por trás de seus pensamentos. Além disso, é calculista e inteligentíssimo, com um toque de loucura cômica para cerejar o bolo. Enfim, ele é o vilão tradicional, o vilão que é mau por ser mau.

A Piada Mortal: Uma das aparições mais perturbadoras do Coringa: claro que não poderia deixar de ser uma das melhores.

Muitos autores usam este tipo de vilão, mas acham que o mesmo ficaria ‘forçado’ sem uma motivação real – Acredito que em alguns cenários isso é verdade: nem sempre o arquétipo de senseless criminal mastermind fica legal – e decidem usar uma ‘causa’ para que o vilão tenha se tornado o que é. Loucura é o meio mais frequente: o personagem perdeu sua capacidade de discernir entre certo e errado.


Outro tipo célebre de vilão é aquele que, em última análise, não é bem um vilão. Estes são, hoje em dia, os mais frequentes (talvez por uma tentativa de amenizar a controversa relação entre certo e errado), como podemos ver no vilão Dhaos. Antagonista do primeiro jogo de uma das mais célebres séries de RPG eletrônico, Tales of Phantasia, Dhaos é nada mais do que um imperador vindo de outro mundo que passado fora aprisionado antes de atingir seu objetivo: reunir energia mágica o suficiente para salvar seu mundo-natal da destruição. Dhaos é um vilão profundo por que está na mesma encruzilhada que os heróis: ele precisa matar um mundo para salvar o seu. No final do jogo (e também do excelente OVA lançado há pouco tempo), os personagens são jogados em uma dúvida excruciante: será que estávamos certos? Após derrotarem Dhaos, condenaram um mundo inteiro à destruição.

Tá aí o tipo de personagem cult que eu queria usar como exemplo há teeeeeeeempos.

Dhaos é brilhante por que os heróis podem se colocar perfeitamente no lugar dele. Sabem que, se tivessem uma necessidade semelhante, agiriam exatamente da mesma forma. E isso é bom por que é verossímil. Lembrem-se que, na literatura (não importando que seja de ficção ou fantasia) usamos conceitos do mundo real para retratar uma realidade inexistente. E nessa nossa realidade, bondade e maldade são conceitos extremamente abstratos que estão, em qualquer análise rasa, subjulgados ao ponto de vista de cada pessoa. Pessoas como o Coringa, felizmente, não existem no mundo real. Dhaos, por outro lado, somos todos nós. Aí está o segredo: o leitor não se identifica apenas com os heróis, mas também com o vilão.


Existem pelos menos dois outros tipos de vilões sobre os quais eu quero falar, mas esse post já tá ficando grande demais, então fica pra próxima.

Thomas finalmente conseguiu

usar novos exemplos

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  1. março 28, 2012 às 12:28 pm

    Muito bom os exemplos!!! Vilões são a alma da historia!!! O que seria do sr Bruce se não tivesse vilões para combater?! Apenas um playboy idiota. E uma referencia que sempre dou de “vilão” são os da CLAMP. Nao existem vilões praticamente, são apenas personagens com pontos de vistas diferentes. E, como diz um dos meus personagens favoritos, “Não existe um caminho por onde todos possam ser felizes” por isso os conflitos!

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