Arquivo

Archive for junho \22\UTC 2012

Psicodrama: o que é e como pode ajudar na criação de mundos e personagens.

Em meu primeiro post aqui no Trapeixe falarei sobre criação de personagens e mundos, não segundo algum autor renomado ou crítico literário respeitado, mas sim sob a perspectiva psicológica, mais especificamente a partir do viés psicodramático. É, muita informação de uma vez só, mas vamos por partes.

Sabemos que as criações carregam certa dose de características e experiências do criador, conteúdo este que fica espalhado (porque “escondido” não seria o termo mais adequado) entre as personagens, as ambientações, o enredo e o estilo de escrita. Querendo ou não o artista (no nosso caso o escritor) representa partes de si em sua arte.

Renan, na reunião do dia 14/06, falou um pouco sobre como pode ser utilizado o método Microscope  como forma de estruturar a linha cronológica de um mundo fictício, estabelecendo períodos, dentro dos quais estão os eventos, que abrangem uma ou mais cenas. Ao todo, é um método muito eficiente de criação grupal de mundos e, em menor escala, de personagens e que me chamou muito a atenção devido a características bastante semelhantes a algumas práticas da escola humanista do psicodrama.

“Mas afinal que raios é o psicodrama?

De maneira bem resumida, o psicodrama é uma prática psicológica criada pelo psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno (1889 – 1974), tendo como objetivo oferecer ao sujeito ou a um grupo (sendo assim classificado de Sociodrama) uma maneira expressiva e expansiva de resignificar eventos, compreender e “tratar” as próprias questões através da linguagem teatral e do uso contínuo da imaginação e espontaneidade. Durante as dinâmicas psicodramáticas é necessário que o(s) sujeito(s) entre em contato com seus próprios papéis e, a depender da situação, com os papéis de outras pessoas. Papel, conceito fundamental da teoria de Moreno, nada mais é do que uma possibilidade identificatória que nos diz respeito. Cada um de nós teria vários papéis, um para cada dimensão do eu (vulgo self), e os utilizamos no dia-a-dia sem quase nos dar conta (por exemplo o cara gente fina do 10º andar que sempre fala com o porteiro, o namorado ciumento, o bom aluno, o vagabundo, etc).

Certo, entendi. Mas finalmente, como isso possivelmente pode me ajudar a elaborar um mundo e os personagens?”

Dentre as várias técnicas psicodramáticas existem duas em particular que podem ser de grande utilidade ao escritor: a Dramatização em Cena Aberta e a Técnica de Inversão de Papéis.

A Dramatização em Cena Aberta se assemelha em várias maneiras ao Microscope, pois exige que haja a construção coletiva de um plano de fundo (Cenário) e especificação do espaço temporal abarcado pela cena (que pode ser de horas, dias, anos, milênios…). A partir dessas definições básicas são apresentados os personagens (Papéis) e a dramatização se desenvolve de maneira a favorecer o improviso, porém evitando sair do papel representado no momento. Essa prática é bastante útil para elaborar eficientemente as situações-chave da narrativa a partir de pontos de vista específicos (um assassinato testemunhado por um mendigo escondido entre os sacos de lixo, por exemplo), potencializando a imersão que o leitor terá ao vislumbrar a cena.

A Técnica da Inversão de Papéis é passível de aplicação em conjunto com a Dramatização em Cena Aberta, uma vez que ela trabalha com a alternância do ponto de vista acerca de um mesmo evento. Por exemplo: a pessoa que representou o mendigo no exemplo acima passa a ser o assassino, a vítima vira o mendigo e o assassino vira vítima. Dessa maneira consegue-se ter uma compreensão a partir de todos os pontos de vista sobre o acontecido, saindo de lugares-comuns como “o assassino é mau” através da relativização. Com a utilização dos fundamentos dessa técnica não só o leitor terá um retrato mais rico a partir das várias interpretações, como também haverá uma melhor compreensão, por parte do escritor, das suas personagens.

Um exemplo claro da funcionalidade desses métodos é a tão aclamada série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, do mestre George R. R. Martin. Através dos vários personagens-foco o leitor vê que nem sempre o antagonista do personagem X é um ser vil e cruel, mas que está apenas agindo de acordo com parâmetros morais diferentes daquele personagem considerado “bom”.

Enfim pessoal, espero ter ajudado. Tentei simplificar o mais que pude sem perder ou distorcer os termos e significados, mas se ficaram dúvidas é só perguntar, ok?

Anúncios

O que um Escritor NÃO deve fazer. [Parte 1 – O Escritor]

Não, não, não!!!!!!!

Eu amo blogs. Sou uma viciada (mas estou em recuperação), mudava de blog a cada três meses, no máximo, e agora já canto vitória com um que tem um ano. Como escrever é um mix de vício e desabafo é impossível não soltar todo o seu talento criativo ali naquele espacinho pessoal/público. É delicioso, te dá um poder enorme e pronto: você saiu do armário via blog, você agora é um Escritor (o mesmo vale pros sites de fotos,  com vlogs e por aí vai) um formador de opiniões e com voz e espaço pra escrever tudo o que quer e inclusive mostrar seu talento literário.

Só que não.

Temos que ter limites e lembrar que ser um Escritor é muito, muito mais coisa que cuspir todos os seus sentimentos/cotidiano/nonsense em palavras no seu amado blog.

Então vamos a listinha:
Primeiro: Defina o que você quer das suas palavras. O fato de você ter um blog não quer dizer que você é um Escritor, uma fanfiction postada em um site de fanfictions também não. Você pode criar um blog pra falar besteiras, contar piadas, comentar notícias e criar poemas de jardim de infância. Você não DEVE se considerar um escritor por isso, qualquer pessoa alfabetizada tem essa capacidade e seu blog não merece um livro, um Pulitzer ou a minha atenção se você ainda não é um escritor.

Depois de decidido que você vai ter um blog que terá suas histórias (nesse ponto você já descobriu que gosta de escrever histórias) publicamente apresentadas você precisa levá-lo a sério (e eis meu grande divisor de águas, em experiência pessoal é a primeira vez que vou criar um blog meu que será totalmente voltado para o que eu escrevo). Então nada, eu disse NADA, de contar piadinhas, fazer de diário, comentar notícias de celebridades ou qualquer coisa não relacionada com o que você se propôs a escrever. Perde a credibilidade, foge a linha de raciocínio, desinteressa o leitor e desestimula o acompanhamento. Caso queira, tenha um blog pessoal, fale todas as suas besteiras lá, vomite imbecilidades e incongruências você TEM todo o direito, mas não no blog onde você se propõe a escrever e ser levado a sério pelo que escreve. Deve ser pensado que as pessoas vão começar a se interessar pelo que você posta, acompanhar a sua evolução (a sua carreira posteriormente) e você se tornou dono de um veículo independente de informação cultural e tem responsabilidades com ele (viva o Tio Ben, do Homem Aranha).

Ótimo! Você agora tem um blog pra chamar de seu! Sinta-se importante.
Mas tenha limites.

Como Thales muito sabiamente colocou na reunião virtual de hoje (31-05-12) há um efeito bizarro que acontece com os autores ruins (entre outras pessoas incapazes) que se chama Efeito Dunning-Kruger , onde indivíduos incapazes sofrem de superioridade ilusória, avaliando erroneamente suas habilidades como muito melhores do que realmente são.  Isso é atribuído a uma inabilidade metacognitiva desses individuos de ter capacidade o suficiente de reconhecer seus próprios erros.
O que quero dizer com isso? Que a pessoa é tão ruim que nem enxergar a cagada que está fazendo consegue, nem pintada de roxo com bolinhas amarelas.

Por outro lado, tem o indivíduo altamente capaz, que enxerga tão bem seus próprios defeitos que tem vergonha de concluir o feito (o conto, o livro, a situação) por se achar inapto. Não é interessante?
Caro coleguinha pretensioso, como nós do trapeixe: Não caia nesse efeito!
Enxergue seus defeitos e não considere-se superior ao fazer uma piadinha de meme no seu blog. Você certamente entrará no top 10 fracassos do ano, junto com as mulheres fruta e os ilustres desconhecidos de reality show.

Segundo: Você começou a escrever, tá bombando de comentários, chegou nos 35 capítulos e tudo que você ouve é “UAU, adoreeeeei, escreve maaaais, vc é minha Stephenie Meyer, minha Thalita Rebouças, ti amuuu” da galerë de 14 anos que te idolatra e acompanha fielmente. Você se considera não só um Escritor, mas “O ESCRITOR”.

Só que não.

Bora acalmando o seu coraçãozinho adolescente, pra escritor ainda falta muito. E parte essencial é ler. Ler aumenta seu vocabulário, impede a dislexia braba que a galerë tem desenvolvido aí, te torna mais inteligente, mais crítico, mais sexy e mais interessante.
Mas nem todo pretensioso lê. E mesmo assim insiste em auto intitular-se “O ESCRITOR”. Você está fazendo isso MUITO errado.
Sou extremamente crítica e altamente chata com tudo que eu leio, e não-sou-a-única. Postei uma vez um texto no skoob que vou colar aqui pra ilustrar.

“No Brasil tem leitor. Mas infelizmente os leitores não são de qualidade. Como assim a culpa é do leitor? Claro que é. Não tem qualidade o leitor que não percebe os erros e a falta de capacitação do autor que escolheu pra ler. O autor pode ser ruim, mas o leitor também o é ao aceitar e idolatrar autores que como ele, um dia foram péssimos leitores.

Mas como ainda não podemos mudar os leitores, tentaremos forçar na mente dos autores que NÃO SE DEVE ESCREVER 200 PAGINAS DE BOBAGENS e publicar. Uma história começa com uma idéia, mas UM LIVRO é muito mais que uma idéia. É uma construção, um processo de aprendizagem eterno e constante.

Vejo autores brasileiros que tem um enorme potencial, mas que não sabem escrever porque não sabem ler!
Os personagens são superficiais e vazios, a adaptação do tempo espaço com frequência apresenta erros e principalmente a narrativa vem com 29834378 assassinatos da gramática de meu amado português brasileiro.

Por favor, leiam e estudem antes de escrever, se dediquem MUITO antes de publicar.”

Acho que nem preciso comentar, cometo sincericídios mesmo.
Porém há (como Juliana, Thales, Rebeca, Renan e Heitor) leitores de muita qualidade, com uma grande bagagem e uma boa compreensão sobre livros. O suficiente para não confundir um escritor com um pretensioso ato falho. Escrever, ao contrário da opinião de alguns grandes idiotas autores-de-romance-de-banca-de-jornais, exige técnica sim. Exige esforço, disciplina, sacrifício e acima de tudo ser um bom leitor. Se você não sabe ler, meu caro pretensioso, como acha que vai saber escrever? Se está limitado aos livros da moda (não sendo O Senhor dos Anéis, que não gosto mas assumo ser uma obra  prima digna de prêmio Nobel da Paz) você não terá capacidade o suficiente para distinguir um livro bom de um livro ruim, vai se basear no livro ruim e vai escrever ainda mais porcarias, e acredite, o mundo não precisa delas, já temos tv aberta.

E para finalizar esse já imenso post (parabéns ao bravo guerreiro pretensioso que chegou aqui, você está no caminho que começa com a perseverança) mas não menos importante.

Terceiro: Você leu muito, escreveu pacarai, descobriu a diferença entre o bem-escrito e a vergonha alheia, os comentários no seu texto agora incluem ávidos leitores de coisas interessantes, reúnem deliciosas críticas construtivas, você é um escritor!

Só que não.

O trabalho acabou de começar. O que listei aqui, até agora, é só uma parte minuscula do trabalho que é ser um escritor. São passos simples pra ter noção e bom senso antes de querer publicar algo. Você chegou na base da pirâmide, parabéns, 60% da população mundial não tem bom senso o suficiente pra chegar até aqui e fica passeando pelo mundo tipo nêutrons. Agora você percebeu que tem um longo, estúpido e cruel caminho pela frente. Não basta ter senso crítico pra se tornar um bom escritor, você não pode abrir mão do que outros escritores tem a lhe ensinar. Precisa aprender tecnicas, estudar mercado, descobrir sua “musa”, perseverar, estudar gramática.

Estudar gramática.

Paragrafo único:
É proibido ter erros de português. E não incluo erros de digitação, falo de erros ortográficos graves, erros de concordância. É SIM, proibido. Ninguém está te pedindo que decore detalhes e nunca erre, isso é humanamente impossível. Mas tenha total atenção ao que faz, erros grosseiros denigrem sua imagem, a imagem da editora, a imagem do revisor e por aí vai.

Me despeço aqui com a certeza no coração e aguardando as críticas cruéis dos “OZADOS” pretensiosos que me lêem com tomates na mão. Nos vemos no próximo episódio de “O que um Escritor não deve fazer”.

***

Thálatta (Bellatrix) Monteiro é aluna de História da UFRRJ, pretensiosa do Trapeixe, mãe de 34 animais e ativista nas horas vagas.