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Criação de Personagens Orientada a Perguntas – parte 6 – Passado

Em primeiro lugar, gostaria de me desculpar pela demora de continuar com essa série de posts. Alguns meses atrás eu comecei a escrever meu primeiro romance (ou, pelo menos, o primeiro que prometi a mim mesmo terminar) e fiquei bastante concentrado nessa tarefa, além de ter feito um blog pessoal para falar deste meu projeto.

Em segundo, no ultimo post dessa série, comentei que iria falar agora de presente, passado e futuro. No entanto, decidi separar em três postagens diferentes. Se por um lado isso fará com que a conclusão demore mais para chegar, por outro permitirá eu apresentar melhor os exemplos que eu vinha fazendo, além de deixar o texto um pouco mais enxuto e mais específico.

Bom, vamos ao terceiro fluxograma então.

 

As etapas anteriores da construção do personagem tratam principalmente sobre quem ele é agora, sendo esse o primeiro fluxograma a se voltar para o que já passou. Talvez a primeira idéia de um fluxograma sobre o passado, seja de que será pensado sobre quem ele era na infância, na adolescência ou em qualquer período que anteceda o presente da narrativa. Isso é algo muito interessante, se não importante, de se pensar. No entanto, o fluxograma apresentado por Lisle tem outra função.

Apesar de suas perguntas acabarem por irem construindo um panorama de como era o personagem em épocas passadas, as perguntas que existem neste fluxograma (mas, novamente, são apenas exemplos alteráveis e ignoráveis) tem por função construir quem é o personagem no presente.

Neste momento da criação é provável que já se tenha uma imagem mais ou menos definida de quem é o personagem, como ele age e também de sua personalidade. Está etapa, portanto, tem o papel de se determinar COMO ele veio a ser quem é, o que em sua história fez com que ele chegasse onde está e apresentar eventos importantes para a formação de sua personalidade e caráter.

Esta é uma etapa bem interessante da “criação de personagens orientada á perguntas”, pois com ela é possível “validar” o personagem, perceber se há algo nele que não faz sentido e saber, de fato, quem ele é. Segundo a idéia de que as memórias são aquilo a que os humanos recorrem quando confrontados com um problema, descobrir o passado do personagem é saber como ele responde a estímulos exteriores e de que forma o faz. Um cuidado especial precisa ser tomado neste momento, para que não se entre em conflito com outros pontos da criação do personagem. Embora, no fim das contas, esse material seja muito mais para o escritor saber com quem está lidando em sua história do que para o leitor conhecer a personagem.

Perguntas como “Qual a melhor coisa que ele fez em sua vida”? Podem parecer um pouco não apropriadas para certos tipos de personagens, um vilão talvez. No entanto, é justamente pare este tipo de arquétipo que talvez ela contribua mais. Mesmo os personagens mais maniqueístas não precisam ter um passado preto ou branco, vilões que tenham feito alguma coisa boa em vida podem ter um background interessante. Mesmo as pessoas mais cruéis podem ter seus momentos de heroísmo, desde que isso esteja justificado em quem elas são. Raistlin Majere, das crônicas de Dragonlance é um personagem sarcástico e sombrio, no entanto, devido sua fragilidade física e seu passado, simpatiza com a ingênua anã da ravina Bupu. Por odiar seu irmão, Cão de Caça protege o Cavaleiro das Flores em Guerra dos Tronos.

A primeira memória do personagem pode ser uma imagem saudosista de tempos que não voltam mais ou algo que o relembre de um ódio. A maior humilhação pode trazer tanto uma lição quanto um motivo para raiva. O evento traumático evoca os medos e a primeira morte que o afetou pode mostrar como ele lida com a perda de alguém importante.

O Passado de Jareen Surtova:

– Que evento mudou a direção de sua vida?

                Por toda sua vida, Jareen foi ignorado pelo pai e pelo o irmão. Considerado como menos que um bastardo, mas ainda assim, morando nas propriedades da família. Poderia ter continuado para sempre com sua vida pacata, alimentando seu ódio e seus desejos de vingança apenas em sonhos, sem realmente ter a força de vontade suficiente para realizar algum dos muitos planos que fazia na solidão dos livros. Na época, contentava-se com sua acidez, no prazer de ver o desgosto nos de Loder Nasher e de enganar o irmão com palavras afiadas. Tudo isso mudou no período que antecedeu a guerra. Vendo necessidade de se valer da estratégia, ordenou que, em sua ausência,  Jareen planejasse uma emboscada contra um exército superior em força, onde o irmão lutaria. Ele aceitou por que acreditou que agora o Nasher precisaria dele, que veria que era superior ao irmão. Mas depois da batalha, Parlun ficou com todo o crédito e o pai lhe disse: “Nunca conseguirá, de fato, vencer uma batalha, apenas ficar atrás de uma mesa. Não é esse tipo de homem que irá comandar Os Surtova. É um abutre, não um comandante.” A partir daí, esteve mais do que disposto a provar que ele estava errado.

– Ele considera que esse evento o mudou?

                Não. Embora saiba que foi um divisor de águas, acredita que suas convicções nunca mudaram e que não teve falsas esperanças em relação aos desejos de Lorde Nasher. O orgulho em sua sagacidade é uma das poucas coisas que possui, não admite para si mesmo que naquele momento não estava controlando o jogo, mas tentando alcançar as expectativas alheias.

– O que ele faria se algo assim acontecesse novamente?

                Não irá acontecer. Ou, pelo menos, essa é sua maior convicção. Sua vida agora gira em torno de cumprir seus próprios objetivos e não de cumprir os desejos de outras pessoas. Nenhum ato que faz deixa de ser ponderado, para saber de que forma aquilo se adéqua ao seus desígnios. É extremamente egoísta, mas pode ter momentos de altruísmo, dos quais se convencerá de que aquilo era o que precisava ser feito para benefício próprio. Mesmo nesses momentos, contudo se mostrará insensível.

– Como mudou sua vida para se ajustar ao que aconteceu?

                Absolutamente nada. Talvez tenha ficado mais ácido e desdenhoso em relação ao pai. Mas seus planos, suas vinganças, residiam justamente na idéia de que ele não iria deixar que uma mudança transparecesse. Para mostrar que era capaz, seria incapaz, até que as coisas se alinhassem, até que sua hora chegasse. Ele pode esperar, paciência é uma virtude que lhe é forte, e sua memória é melhor que a da maioria dos homens.

Renan Barcellos

Primeira parte da série

Parte anterior

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