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Posts Tagged ‘A Taverna’

Diretivas

À seguir, algumas diretivas que temos utilizado como base para a Taverna do Trapeixe, e alguns comentários sobre elas. Algumas delas são inspiradas no Shrodinger’s Petshop e muitas acabam sendo intuitivas.Sentimos que, na criação de tais diretivas o grupo começava a se delinear e as ideias começaram a realmente tomar forma. Elas não visam ser inflexíveis, até porque a proposta original da Taverna é a de um grupo adaptável a seus membros. Ainda não tivemos problemas com tais diretivas e, caso algum leitor tenha interesse, podem ser utilizadas como base para a criação de um grupo de escrita. Esperamos que sejam úteis.

 

IO foco da Taverna do Trapeixe é, principalmente, fantasia e ficção científica.

 

    Uma das grandes discussões tidas ainda quando o grupo começava a engatilhar tratava da decisão de direcionar ou não o conteúdo debatido em nossas reuniões. Isso ia desde “só discutiremos fantasia e scifi” a “discutiremos sem eixo algum”.

    A solução nos veio com a experimentação: A Taverna é receptiva a vários estilos de escrita, independente de classificação e de forma: roteiros e poemas já foram apresentados nas reuniões sem problemas. Contudo, o que ainda consome a maior parte do tempo são questões relativas a fantasia e ficção científica.

    Talvez por esses gêneros não terem seu devido espaço para serem discutidos em outros meios literários, talvez porque a fantasia e a ficção cientifica envolvem uma quantidade inesgotável de argumentos para análise e especulação, ou simplesmente porque a maioria dos membros têm seus trabalhos até agora voltados para esses gêneros, o fato é que essa diretiva surgiu como um aviso e como um guia: “Aos que escrevem scifi e fantasia, venham aqui. Aos que não escrevem, ainda assim poderemos te ajudar.”

II – São bem vindas pessoas de todas as idades, escolaridades e níveis de escrita. Basta apenas a vontade de escrever e querer se aprimorar.

    A ideia é: não discriminamos. Todo mundo teve que começar do “muito ruim”, até mesmo escritores lendários. E todo mundo tem que começar em algum momento, e dificilmente há um cedo ou tarde demais para escrever.

    Se você não tiver problema aceitando o grupo, dificilmente ele terá com você. Não há testes, nem iniciações formais: Você chega, senta-se, apresenta-se, participa. Leva algum planejamento ou escrito seu se desejar, ou apenas assiste uma das reuniões para se familiarizar. Não há obrigações de regularidade depois que você se une à Taverna, ainda que cada presença adicional tenha o potencial de ser mutuamente construtiva.

III Toda escrita tem seu ponto forte.

    Damos a esse princípio o nome de “Gostei… do início”

 

 

IVCríticas não devem ser direcionadas ao autor, mas sim às suas obras.

    Se algum conteúdo apresentado na reunião não for de seu agrado, tenha em mente que aquilo não classifica imediatamente seu autor como um autor ruim. Autores bons escrevem textos ruins, embora não seja com frequência que os publiquem. A Taverna é o local onde todos têm uma chance de errar para melhorar. Dizer a um autor que ele é simplesmente ruim e que deveria desistir da escrita serve apenas para desestimulá-lo ou irritá-lo. E isso, frequentemente, não contribuí em nada, principalmente porque não diz onde ele deve se esforçar para melhorar.

 

 

VTodas as críticas devem ser construtivas. Não fale que algo está simplesmente ruim, mas dê a sua opinião do porquê e sugira como melhorar.

    “Odiei”, “ficou feio” e “precisa melhorar” isoladamente não indicam muita coisa. Quando você diz “A história ficou muito corrida, os personagens pareciam surgir do nada e não tinham uma profundidade convincente – eu não consegui gostar ou odiar nenhum deles”, a autora vai saber o que tem que corrigir.

    Saber que algo está errado, mas não o que, já ajuda, mas é uma ajuda mínima. O escritor pode acabar mudando partes que se encaixaram muito bem na tentativa de refazer um texto bom e, pior ainda, deixar a parte que estava ruim sem grandes melhorias. Por isso, fale dos detalhes da história, reclame de cadência e pontuação, do formato dos parágrafos, da verossimilhança e coerência do mundo, das descrições e ambientes. Mas tente entender o motivo de reclamar sobre cada uma dessas coisas, e passar isso ao escritor. Isso será bom para ele, e será bom para você, pois o ajudará a amadurecer sua capacidade de análise.

VICaso não consiga ou não aceite ouvir seus trabalhos serem criticados, por favor não venha. É para isso que estamos aqui. E não para nos congratularmos e constatarmos o quão perfeitos são nossos textos.

    Não há espaço para melhorar se você acha que sua obra está perfeita. Por melhor que você acredite ser, sempre há algo que pode ser aprendido. É mais certo que um escritor que se recusa a ver defeitos em sua obra e crê ter atingido o ápice tenha um horizonte mais reduzido do que o que tem tendência a não gostar do que escreve.

 

 

VIIVocê não precisa mudar algo só porque alguém não gostou. Mas pelo menos ouça o que têm a dizer.

    Nem sempre as opiniões dos outros membros irão melhorar suas histórias. E a história é sua afinal, então cabe a você decidir o que deve ser incluído, removido ou modificado nela. Ainda assim, pare e ouça. Argumente se necessário, mas tente não descartar qualquer contribuição. Se criamos uma cultura de críticas construtivas, a pessoa que as recebe deve ser tão respeitosa com elas quanto a pessoa que se esforçou para explicar ao máximo o que não gostou do texto. Além disso, uma ideia que não se adeque a um projeto atual pode ser uma ideia brilhante para um projeto futuro.

 

 

VIIIHaverá bolo

    Não acredite naqueles que lhe disserem que é uma mentira.

 

 

IXCaso um dos membros ou aspirantes de alguma forma esteja atrapalhando a atividade e a harmonia do grupo prolongadamente, ele pode ser convidado a “retirar-se”  por um tempo indefinido.

    Essa é uma diretiva drástica que felizmente até hoje não precisou ser acionada, mas ainda assim é importante que ela exista. No caso extremo de um membro que frequente o grupo prejudicar as reuniões com frequência, causando mau estar às pessoas e arruinando os encontros, entendemos que o indivíduo se tornou um membro disfuncional, sendo maior o benefício adquirido com sua remoção que com sua permanência.

 

 

XFlechas no joelho não são desculpa para se ausentar das reuniões

    Mas podem te privar de algumas aventuras.

 

 

XIPor menor que seja, tente escrever ou produzir algo toda semana.

    É bom como exercício, e alguns dos membros já disseram que motivá-los a alcançar tal meta semanal foi uma das maiores contribuições da Taverna. “Algo” podem ser anotações, pode ser um conto a ser lido, um capítulo, entre outros. Nem sempre precisa ser algo escrito, visto que ideias de histórias e levantamento de temas costumam gerar discussões longas e produtivas.

    Mesmo não tendo produzido nada, todos ainda são bem vindos, se quiserem conversar sobre os temas abordados e discutir o que os outros fizeram.

 

 

XIIPreferencialmente, as decisões do grupo devem ser tomadas através de consenso.

Embora existam momentos onde apenas uma votação servirá para resolver certas disputas, aprendemos que as decisões mais satisfatórias surgem do meio termo entre as opiniões de todos os presentes.

XIILer é importante. Leia bem e não se limite ao gênero que pretende escrever.

    Ler e escrever estão intimamente ligados. Leia o que você gosta, leia o que você não sabe se gosta, experimente. Boa parte da rota para aprender qualquer coisa está em copiar, e quanto mais variadas são suas fontes, mais sua visão estará mais estendida para ver surgir seu próprio estilo. Mas aprenda também a ler criticamente: leitura desenfreada sem reflexão alguma pode não ser tão benéfica.

   

XIIVocê não pode ser o Trapeixe. Ninguém pode.

    Você perdeu um olho e um braço? Tem uma Taverna? Atira com uma besta pesada e a recarrega com uma única mão…? Então nem tente.

 

 

Essas são as diretivas principais que temos abraçado. Felizmente todos os membros acabaram seguindo-as – mesmo os que sequer sabem de sua existência – e nunca tivemos problemas dentro do grupo.

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Psicodrama: o que é e como pode ajudar na criação de mundos e personagens.

Em meu primeiro post aqui no Trapeixe falarei sobre criação de personagens e mundos, não segundo algum autor renomado ou crítico literário respeitado, mas sim sob a perspectiva psicológica, mais especificamente a partir do viés psicodramático. É, muita informação de uma vez só, mas vamos por partes.

Sabemos que as criações carregam certa dose de características e experiências do criador, conteúdo este que fica espalhado (porque “escondido” não seria o termo mais adequado) entre as personagens, as ambientações, o enredo e o estilo de escrita. Querendo ou não o artista (no nosso caso o escritor) representa partes de si em sua arte.

Renan, na reunião do dia 14/06, falou um pouco sobre como pode ser utilizado o método Microscope  como forma de estruturar a linha cronológica de um mundo fictício, estabelecendo períodos, dentro dos quais estão os eventos, que abrangem uma ou mais cenas. Ao todo, é um método muito eficiente de criação grupal de mundos e, em menor escala, de personagens e que me chamou muito a atenção devido a características bastante semelhantes a algumas práticas da escola humanista do psicodrama.

“Mas afinal que raios é o psicodrama?

De maneira bem resumida, o psicodrama é uma prática psicológica criada pelo psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno (1889 – 1974), tendo como objetivo oferecer ao sujeito ou a um grupo (sendo assim classificado de Sociodrama) uma maneira expressiva e expansiva de resignificar eventos, compreender e “tratar” as próprias questões através da linguagem teatral e do uso contínuo da imaginação e espontaneidade. Durante as dinâmicas psicodramáticas é necessário que o(s) sujeito(s) entre em contato com seus próprios papéis e, a depender da situação, com os papéis de outras pessoas. Papel, conceito fundamental da teoria de Moreno, nada mais é do que uma possibilidade identificatória que nos diz respeito. Cada um de nós teria vários papéis, um para cada dimensão do eu (vulgo self), e os utilizamos no dia-a-dia sem quase nos dar conta (por exemplo o cara gente fina do 10º andar que sempre fala com o porteiro, o namorado ciumento, o bom aluno, o vagabundo, etc).

Certo, entendi. Mas finalmente, como isso possivelmente pode me ajudar a elaborar um mundo e os personagens?”

Dentre as várias técnicas psicodramáticas existem duas em particular que podem ser de grande utilidade ao escritor: a Dramatização em Cena Aberta e a Técnica de Inversão de Papéis.

A Dramatização em Cena Aberta se assemelha em várias maneiras ao Microscope, pois exige que haja a construção coletiva de um plano de fundo (Cenário) e especificação do espaço temporal abarcado pela cena (que pode ser de horas, dias, anos, milênios…). A partir dessas definições básicas são apresentados os personagens (Papéis) e a dramatização se desenvolve de maneira a favorecer o improviso, porém evitando sair do papel representado no momento. Essa prática é bastante útil para elaborar eficientemente as situações-chave da narrativa a partir de pontos de vista específicos (um assassinato testemunhado por um mendigo escondido entre os sacos de lixo, por exemplo), potencializando a imersão que o leitor terá ao vislumbrar a cena.

A Técnica da Inversão de Papéis é passível de aplicação em conjunto com a Dramatização em Cena Aberta, uma vez que ela trabalha com a alternância do ponto de vista acerca de um mesmo evento. Por exemplo: a pessoa que representou o mendigo no exemplo acima passa a ser o assassino, a vítima vira o mendigo e o assassino vira vítima. Dessa maneira consegue-se ter uma compreensão a partir de todos os pontos de vista sobre o acontecido, saindo de lugares-comuns como “o assassino é mau” através da relativização. Com a utilização dos fundamentos dessa técnica não só o leitor terá um retrato mais rico a partir das várias interpretações, como também haverá uma melhor compreensão, por parte do escritor, das suas personagens.

Um exemplo claro da funcionalidade desses métodos é a tão aclamada série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, do mestre George R. R. Martin. Através dos vários personagens-foco o leitor vê que nem sempre o antagonista do personagem X é um ser vil e cruel, mas que está apenas agindo de acordo com parâmetros morais diferentes daquele personagem considerado “bom”.

Enfim pessoal, espero ter ajudado. Tentei simplificar o mais que pude sem perder ou distorcer os termos e significados, mas se ficaram dúvidas é só perguntar, ok?

As viagens da Tartaruga: estranhos chapéus e lagos congelados

abril 23, 2012 2 comentários

Muito tempo se passou desde que a Tartaruga pôde ir a algum lugar. Perdida entre bolsos de casacos e mochilas, ela já se perguntava se algum dia voltaria a ver a fria luz artificial de algum café de shopping outra vez. Sentia-se presa. Sentia-se inexoravelmente solitária. Abandonada. Sentia-se como Faye: muda, esquecida pelos pais,  sem escolha ou escapatória.

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Para jogar e criar histórias – O sistema de RPG Microscope (parte 1)

março 23, 2012 1 comentário

Alguns de nós da Taverna, além de gostarmos de escrever, também gostamos de jogar RPG. Então começamos a tentar jogar aos sábados, após as reuniões presenciais. No último, resolvemos testar um sistema diferente, sobre o qual Renan leu recentemente e que nos pareceu bem interessante para construir cenários e backgrounds de mundos – ou seja, que poderia ser, além de divertido, útil, contribuindo para as histórias de alguns de nós ou em outros projetos paralelos. Trata-se do Microscope.

Por conta desse aspecto funcional do sistema, achamos que valia a pena falar sobre ele aqui no blog. Vamos abordá-lo em dois posts: neste primeiro, darei um depoimento de como foi nossa experiência com o jogo. Em um próximo (para o qual sumonarei Renan ou Thales), serão tratadas suas regras e funcionamento em si.

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Apresentação: A Taverna

janeiro 29, 2012 Deixe um comentário

Este blog foi criado (finalmente criado, diriam alguns) com o objetivo principal de podermos divulgar o grupo de escrita “A Taverna do Trapeixe”, que se reúne todos as semanas em algum lugar de Salvador, normalmente, isso significa que estaremos, em uma tarde de sábado, em alguma livraria ou café, discutindo textos que tenhamos escrito, ideias para novas histórias ou, ainda, como vivem os dragões nesse ou naquele mundo.

Entretanto, o blog não teria muita serventia se apenas nos limitássemos a falar como foi a última reunião e postar contos ou escritos de algum dos membros, então, aproveitaremos este espaço, também, para compartilhar nosso aprendizado sobre técnicas de escrita, livros que nos inspiram, experiências de outros grupos… Enfim, tudo que, de algum modo, entendamos que possa contribuir com o processo de escrita – nosso ou de outros.  Leia mais…

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