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Psicodrama: o que é e como pode ajudar na criação de mundos e personagens.

Em meu primeiro post aqui no Trapeixe falarei sobre criação de personagens e mundos, não segundo algum autor renomado ou crítico literário respeitado, mas sim sob a perspectiva psicológica, mais especificamente a partir do viés psicodramático. É, muita informação de uma vez só, mas vamos por partes.

Sabemos que as criações carregam certa dose de características e experiências do criador, conteúdo este que fica espalhado (porque “escondido” não seria o termo mais adequado) entre as personagens, as ambientações, o enredo e o estilo de escrita. Querendo ou não o artista (no nosso caso o escritor) representa partes de si em sua arte.

Renan, na reunião do dia 14/06, falou um pouco sobre como pode ser utilizado o método Microscope  como forma de estruturar a linha cronológica de um mundo fictício, estabelecendo períodos, dentro dos quais estão os eventos, que abrangem uma ou mais cenas. Ao todo, é um método muito eficiente de criação grupal de mundos e, em menor escala, de personagens e que me chamou muito a atenção devido a características bastante semelhantes a algumas práticas da escola humanista do psicodrama.

“Mas afinal que raios é o psicodrama?

De maneira bem resumida, o psicodrama é uma prática psicológica criada pelo psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno (1889 – 1974), tendo como objetivo oferecer ao sujeito ou a um grupo (sendo assim classificado de Sociodrama) uma maneira expressiva e expansiva de resignificar eventos, compreender e “tratar” as próprias questões através da linguagem teatral e do uso contínuo da imaginação e espontaneidade. Durante as dinâmicas psicodramáticas é necessário que o(s) sujeito(s) entre em contato com seus próprios papéis e, a depender da situação, com os papéis de outras pessoas. Papel, conceito fundamental da teoria de Moreno, nada mais é do que uma possibilidade identificatória que nos diz respeito. Cada um de nós teria vários papéis, um para cada dimensão do eu (vulgo self), e os utilizamos no dia-a-dia sem quase nos dar conta (por exemplo o cara gente fina do 10º andar que sempre fala com o porteiro, o namorado ciumento, o bom aluno, o vagabundo, etc).

Certo, entendi. Mas finalmente, como isso possivelmente pode me ajudar a elaborar um mundo e os personagens?”

Dentre as várias técnicas psicodramáticas existem duas em particular que podem ser de grande utilidade ao escritor: a Dramatização em Cena Aberta e a Técnica de Inversão de Papéis.

A Dramatização em Cena Aberta se assemelha em várias maneiras ao Microscope, pois exige que haja a construção coletiva de um plano de fundo (Cenário) e especificação do espaço temporal abarcado pela cena (que pode ser de horas, dias, anos, milênios…). A partir dessas definições básicas são apresentados os personagens (Papéis) e a dramatização se desenvolve de maneira a favorecer o improviso, porém evitando sair do papel representado no momento. Essa prática é bastante útil para elaborar eficientemente as situações-chave da narrativa a partir de pontos de vista específicos (um assassinato testemunhado por um mendigo escondido entre os sacos de lixo, por exemplo), potencializando a imersão que o leitor terá ao vislumbrar a cena.

A Técnica da Inversão de Papéis é passível de aplicação em conjunto com a Dramatização em Cena Aberta, uma vez que ela trabalha com a alternância do ponto de vista acerca de um mesmo evento. Por exemplo: a pessoa que representou o mendigo no exemplo acima passa a ser o assassino, a vítima vira o mendigo e o assassino vira vítima. Dessa maneira consegue-se ter uma compreensão a partir de todos os pontos de vista sobre o acontecido, saindo de lugares-comuns como “o assassino é mau” através da relativização. Com a utilização dos fundamentos dessa técnica não só o leitor terá um retrato mais rico a partir das várias interpretações, como também haverá uma melhor compreensão, por parte do escritor, das suas personagens.

Um exemplo claro da funcionalidade desses métodos é a tão aclamada série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, do mestre George R. R. Martin. Através dos vários personagens-foco o leitor vê que nem sempre o antagonista do personagem X é um ser vil e cruel, mas que está apenas agindo de acordo com parâmetros morais diferentes daquele personagem considerado “bom”.

Enfim pessoal, espero ter ajudado. Tentei simplificar o mais que pude sem perder ou distorcer os termos e significados, mas se ficaram dúvidas é só perguntar, ok?

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Reeducação Postural Global. Só que não.

abril 26, 2012 1 comentário

Pois bem. Falamos de heróis, falamos de vilões, de lutas e referências. Como eu sou um poço de imaginação (só que ao contrário), desde a semana passada eu não faço a menor idéia do que seria o tema da minha próxima postagem.

Fazia.

Meu tema para hoje será algo que, embora eu tenha referenciado vááááárias vezes durante meus últimos textos, acabei não falando nada específico. Creio que muitos dos leitores desse blog jogam, mestram, assistem, lêem ou ao menos já ouviram falar de RPG.

Talvez um ou outro leitor desse blog não saiba o que é RPG, então aqui vai um resumão da coisa: RPG (roleplaying game) é nada mais que um jogo em que você interpreta um personagem dentro de uma história narrada por um outro jogador (o mestre). Normalmente um mestre narra a história para um grupo de jogadores, e cada jogador atuando um personagem, fazem um grupo de heróis que vive aventuras imaginadas. Para que a aventura não fique abstrata demais, existem fichas com as informações de cada personagem e testes utilizando dados fazem saber quais ações foram ou não bem-sucedidas: desde atacar um monstro com uma espada até abrir uma porta trancada usando ferramentas. O limite para onde as aventuras podem acontecer e o que os personagens podem fazer dentro das aventuras é o limite da imaginação dos jogadores. Se eu consegui me expressar direito, você deve ter imaginado um jogo de faz-de-conta pra adultos. É mais ou menos isso.

Mulheres jogando RPG? PFFFT

Eu comecei a jogar RPG em um período super trash da minha vida. Era o típico loser na escola, a garota de quem eu gostava (que depois veio a ser minha primeira namorada, olha só) achava que eu era o próximo amigo gay dela, não tinha amigos, minhas notas estavam horríveis e eu morava na casa da minha avó, que na época era o equivalente IRL de Sauron, o Senhor do Escuro. E o RPG meio que me tirou desse fosso.

Antes que isso vire um diário, digamos que o carinha que eu mais odiava no colégio veio convidar um tio meu pra jogar RPG e esse meu tio disse que não queria mas que eu poderia me interessar. O bully maldito virou um dos meus melhores amigos depois daquele dia. Desde a primeira primeira sessão (Harry Potter, me julguem) me apaixonei pelo hobby. Naquela época eu era meio alheio, apenas jogava sem entender muito as mecânicas (e não tinha grana pra comprar os livros básicos de D&D pra aprender mais), mas assim que me mudei para Curitiba comprei o primeiro e segundo números da Dragonslayer. Até comprar essa revista eu não fazia a menor idéia do que era RPG. Apenas com ela eu passei a compreender o que era o Trio Tormenta, conheci inúmeros sistemas e ambientações, aprendi mais sobre edições antigas do D&D, adquiri crivo de julgamento para novos e velhos sistemas e ambientações, li romances baseados em cenários, comprei meus livros (finalmente!) e hoje em dia posso dizer com segurança que tenho conhecimentos sólidos do hobby.

Eles podem espernear, negar e caçoar: mas pode ter certeza que todo RPGista já se imaginou assim enquanto jogava.

“Ok, Thomas, sua história de vida é linda, você merecia aparecer no Programa do Gugu. Mas este é um blog sobre escrita. O que essa atividade demoníaca tem a ver com escrita?”, você pergunta. Minha resposta é simples: tudo.

RPG é, essencialmente, a criação de uma história em conjunto com amigos bebendo refrigerante quente e comendo salgadinhos. RPG é a invenção de um mundo, é a descrição de ações, aparências. É plot twist, é drama e surpresa. Um bom RPG tem história para vários livros. E o pior é que eles realmente existem. Cenários de RPG geram uma literatura sólida e de público fixo, ainda que seleto aos maiores fãs do gênero. Qual RPGista veterano nunca ouviu falar de Elminster: The Making of a Mage? E qual viciado por beholders nunca entrou em uma livraria especializada e ficou babando para os épicos nove volumes de War of the Spider Queen? Eu mesmo sempre uso A Trilogia Tormenta como exemplos nos meus posts.

RPG e literatura andam de mãos dadas, ainda mais se for o tipo de literatura que abordamos aqui na Taverna. Por mais que você não vá encontrar adaptações de Querido John por aí, pode esperar que no próximo número da Dragonslayer teremos uma bela adaptação de Avengers com as mesmas imagens que todo mundo já viu do filme. O Senhor dos Anéis foi o pai dos wargames, jogos de tabuleiro que simulavam guerras, estilo WAR, que por sua vez foram pais do RPG. Indiretamente, RPG nasceu de literatura fantástica. Além disso, estamos vendo hoje em dia que uma boa parte do público de RPG não joga ativamente mas continua consumindo material escrito por puro prazer. Pensando nisso, publicações como o Guia do Mundo de Reinos de Ferro, que unem regras e descrição de ambientação, estão cada vez mais comuns.

E aí, RPGista. Muita nostalgia dos bons tempos de RPG nos sábados de tarde?

Enfim, este post não teve quase nada de aproveitável para o conteúdo comum da Taverna, mas é um tema que deu pra aproveitar. RPG e literatura fantástica andam de mãos dadas, um promovendo e recriando o outro. Se você nunca tentou jogar, dê uma chance (e não se intimide pela aparência dos nerds que irão jogar com você: lembre-se que eles tem mais medo de você do que você deles). Se faz muito tempo que não joga, reúna seu antigo grupo e tire uma tarde de inverno pra revisitar aquele seu meio-orc bárbaro com 3 de Inteligência. Leia material de RPG, leia romances ambientados em RPG, faça versões escritas das aventuras do grupo. E divirta-se, por que se você não se diverte jogando RPG, é por que está jogando errado.


Thomas não joga RPG fazem meses e

irá remediar esta situação domingo que vem.

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Para jogar e criar histórias – O sistema de RPG Microscope (parte 1)

março 23, 2012 1 comentário

Alguns de nós da Taverna, além de gostarmos de escrever, também gostamos de jogar RPG. Então começamos a tentar jogar aos sábados, após as reuniões presenciais. No último, resolvemos testar um sistema diferente, sobre o qual Renan leu recentemente e que nos pareceu bem interessante para construir cenários e backgrounds de mundos – ou seja, que poderia ser, além de divertido, útil, contribuindo para as histórias de alguns de nós ou em outros projetos paralelos. Trata-se do Microscope.

Por conta desse aspecto funcional do sistema, achamos que valia a pena falar sobre ele aqui no blog. Vamos abordá-lo em dois posts: neste primeiro, darei um depoimento de como foi nossa experiência com o jogo. Em um próximo (para o qual sumonarei Renan ou Thales), serão tratadas suas regras e funcionamento em si.

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